Levante: O Primeiríssimo SUV da Maserati à Prova dos Puristas
Já dirigimos o Maserati Levante, e sua existência responde a uma questão básica da indústria esportiva italiana: por que um fabricante especializado em carros de alto desempenho investiria em um utilitário? Pergunte a qualquer financista da região de Modena e ouvirá a mesma resposta: SUVs bancam superesportivos.
Por isso, sempre inicio testes com SUVs de marcas esportivas com expectativas cautelosas. O desafio é fazer algo que pareça uma evolução natural da marca. Rolls-Royce e Lamborghini já encontraram sua fórmula; agora é a vez da Maserati provar que o Levante tem legitimidade.
Levei o SUV para as sinuosas montanhas de Monterey. A primeira curva, íngreme e com raio negativo, já revelou muito: reduções rápidas, o V6 de origem Ferrari berrando pela cabine revestida de couro impecável, e o SUV contornando o precipício com equilíbrio de sedã. As mudanças bruscas de elevação não o abalam, e os 20 cm de altura não tiram sua compostura esportiva.
Estradas assim foram criadas para supercarros, mas isso as torna ideais para revelar o caráter real do Levante. Na segunda curva, com o motor gritando e o escapamento estalando, fica evidente: ele é um Maserati — apenas maior.

O design, com cintura alta, dá porte e presença, deixando espectadores em dúvida entre Macan e Cayenne (ele pertence à categoria do segundo). O Levante aparece em um momento de transição no conceito de SUVs, bem distante do protótipo Kubang exibido cinco anos atrás. A autenticidade agora vem não da agressividade, mas da habilidade de transmitir a alma da marca em um veículo mais alto.
Fiel à tradição de nomes derivados de ventos, “Levante” referencia um vento mediterrâneo associado a alta pressão. Uma homenagem tradicional para um produto nada convencional. Parte do público pode estranhar a herança FCA e a antiga colaboração com a Daimler Chrysler, mas o tridente gigante na grade resolve qualquer crise identitária.
Visualmente, o Levante parece um Ghibli Wagon com toques de Cayenne — e isso não é negativo. Ele se sente como um Porsche ao entrar por sua porta ampla e assumir a posição de condução que lembra mais um sedã do que um utilitário. A capacidade do porta-malas é menor que a de X5 e Cayenne, mas isso raramente será decisivo para quem compra o Maserati.
Observando de perto, os detalhes do design impressionam: cortes limpos, superfícies elegantes, costuras refinadas. O interior é luxuoso, com opção de pacote da Zegna, embora existam alguns elementos compartilhados com Chrysler e Ram. O multimídia é excelente, mas a interface do motorista parece exigir um manual avançado — especialmente os modos de condução.

O Levante S americano vem com o V6 3.0 biturbo, entregando 345 cv na versão básica e 424 cv no S. Acelera de 0 a 96 km/h entre 6 s e 5,2 s. Todos os modelos americanos terão tração integral.
Ao pisar fundo, o ronco e os estalos do escapamento constroem uma experiência visceral. O câmbio de oito marchas faz trocas rápidas e decisivas. Nas descidas onduladas, o SUV revela sua massa, mesmo com suspensão pneumática ajustada para o modo mais esportivo.
Mas fora do limite, o Levante se mostra estável, confortável e com direção hidráulica extremamente comunicativa — algo raro no segmento. No modo I.C.E., ele suaviza tudo, tornando a condução relaxada e eficiente.
Depois de algumas horas, você percebe: o Levante foi afinado para transmitir a sensação de supercarro em formato de SUV. Para os apaixonados pela marca, isso basta.
O maior problema é a concorrência: Jaguar F-Pace oferece comportamento parecido por metade do preço. Mas o Levante opera em outro universo emocional — e seus compradores também.
Se você busca um SUV esportivo com alma italiana e identidade forte, o Levante merece atenção.

