Tesouros sobre Rodas: Uma Viagem Pelo Tempo Automotivo Brasileiro no Salão do Automóvel 2025
O Salão do Automóvel de São Paulo, um evento que por décadas tem sido o palco principal para a revelação de sonhos sobre rodas e inovações tecnológicas, sempre funcionou como uma ponte entre o passado glorioso e o futuro promissor da indústria automobilística. Na edição de 2025, realizada entre os dias 22 e 30 de novembro no vibrante Distrito Anhembi, na capital paulista, essa simbiose entre eras foi habilmente orquestrada pelo estande do Carde. Este museu, recém-inaugurado em Campos do Jordão (SP), trouxe uma seleção ímpar de joias automobilísticas, cada uma carregada de memórias e representando um capítulo na história do Brasil. A intenção foi clara: demonstrar como certos veículos transcendem a mera funcionalidade, transformando-se em pilares afetivos para incontáveis gerações de entusiastas.
Como especialista com uma década de imersão no dinâmico mercado automotivo, testemunhei de perto a evolução da paixão nacional por carros. A indústria brasileira de automóveis, com suas particularidades e talentos, sempre nos presenteou com criações que, mesmo diante de gigantes globais, forjaram sua própria identidade. A presença do Carde no Salão do Automóvel de São Paulo 2025 não foi apenas uma exposição de carros antigos, mas uma narrativa visual e tátil da nossa jornada industrial e cultural. Ao trazer esses carros históricos brasileiros para o centro das atenções, o museu convidou os visitantes a revisitarem momentos marcantes, reavivando a chama da admiração por designs icônicos e engenharia pioneira.

A curadoria, sob a atenta batuta de Luiz Goshima, figura que considero um verdadeiro oráculo do automobilismo nacional, apresentou uma mistura criteriosa de clássicos produzidos em terras tupiniquins, superesportivos que definiram épocas e protótipos vanguardistas. Todos, de alguma forma, entrelaçados com a própria trajetória do Salão do Automóvel, o principal palco de lançamento e apresentação de novidades automotivas no Brasil. A exposição no Anhembi foi um convite irrecusável para uma imersão nostálgica, um mergulho profundo na alma de um país que sempre amou seus automóveis.
De Viagens Familiares a Sonhos de Velocidade: Os Pioneiros que Moldaram Gerações
A experiência do visitante, no estande do Carde, foi cuidadosamente planejada para iniciar uma viagem cronológica. A jornada começou com uma peça que evoca um tempo de simplicidade e a promessa de aventuras: a Volkswagen Kombi Turismo de 1960. Este exemplar, uma espécie de motorhome dos primórdios, personifica o espírito de exploração e a ideia de que o carro era, de fato, uma extensão do lar. Com suas generosas janelas panorâmicas e um acabamento pensado para o conforto em longas jornadas, a Kombi da VW representava a era em que a mobilidade ainda era sinônimo de descoberta e união familiar. É um lembrete pungente de um tempo onde a tecnologia era secundária à experiência humana, uma filosofia que muitas marcas de luxo buscam resgatar hoje.
Da mesma década, emergiu o STV Uirapuru, um dos exemplares mais raros e desejados da produção esportiva brasileira. Apresentado ao público no Salão de 1966 em sua configuração conversível, o Uirapuru teve uma produção extremamente limitada, com pouco mais de 70 unidades fabricadas, das quais pouquíssimas sobreviveram até os dias de hoje. Seu design arrojado e os característicos faróis retangulares eram um sinal inconfundível da busca por uma identidade nacional em um período em que o Brasil começava a ousar em seus sonhos de desempenho e esportividade. O STV Uirapuru é um testemunho do talento e da audácia dos engenheiros e designers brasileiros da época, um marco na história do automóvel brasileiro.
O Rugido dos Muscle Cars Nacionais e a Inovação da VW SP2
A virada para a década de 1970 trouxe um novo fôlego de potência e sofisticação ao Salão do Automóvel. Foi nesse contexto que o Dodge Charger R/T, estrela da edição de 1971 – a primeira realizada no recém-inaugurado Pavilhão do Anhembi –, fez sua entrada triunfal. Equipado com um robusto motor V8 de 215 cv e ostentando um visual imponente e agressivo, o Charger R/T consolidou seu lugar como um dos maiores ícones da era dos muscle cars brasileiros. Seu ronco e sua presença marcante ecoam até hoje na memória dos entusiastas de carros esportivos brasileiros.

Complementando a representação da década de 70, a Volkswagen apresentou o SP2. Este projeto, concebido e desenvolvido integralmente no Brasil, tinha a ambiciosa missão de competir diretamente com outros esportivos nacionais da época. Com seu perfil baixo, linhas fluidas e um design inconfundível, o SP2 conquistou um status cultuado tanto nacional quanto internacionalmente, apesar de sua produção ter se estendido por pouco menos de quatro anos. Sua silhueta elegante o tornou um objeto de desejo e um ícone do design automotivo brasileiro.
A Revolução Tecnológica dos Anos 80 e a Arte dos Protótipos Artesanais
Os anos 1980 foram um período de efervescência para os entusiastas, com inovações que prometiam revolucionar a experiência de dirigir. Um dos maiores destaques foi o Volkswagen Gol GTI, apresentado ao público em 1988. Este modelo não apenas se destacou pelo seu desempenho, mas por um feito inédito na indústria nacional: foi o primeiro carro produzido em série no Brasil com injeção eletrônica. Em sua icônica cor Azul Mônaco, o Gol GTI simbolizou a transição tecnológica da época, inaugurando uma nova era para a performance e a eficiência da indústria automobilística brasileira. O Gol GTI brasileiro se tornou um marco para os entusiastas.
O Carde, em sua curadoria, fez questão de apresentar outro representante dessa fase de ousadia e engenharia singular brasileira: o Hofstetter. Este protótipo, exibido em 1984, é amplamente considerado um dos projetos mais impressionantes e visionários já realizados no país. Construído com uma carroceria em fibra de vidro, equipado com um motor Cosworth central e apresentando portas tipo asa de gaivota, este modelo de estética futurista possuía apenas 99 cm de altura. Suas linhas e conceitos foram inspirados nos grandes estúdios de design europeus da época, e sua produção artesanal resultou em apenas 18 unidades concluídas ao longo de seu desenvolvimento. O Hofstetter é uma obra de arte sobre rodas, representando o ápice da inovação e da exclusividade.
A Abertura das Importações e a Chegada de Supermáquinas Internacionais
A década de 1990 marcou um divisor de águas para o mercado automotivo brasileiro com a abertura das importações. O Salão do Automóvel tornou-se, então, um palco para máquinas que, até então, só eram vislumbradas em revistas especializadas ou em sonhos distantes.
Uma dessas lendas que desembarcaram em solo brasileiro foi a Ferrari F40. Inicialmente apresentada em 1987, este supercarro italiano se tornou um marco na engenharia automotiva. Seu motor V8 biturbo, capaz de entregar 478 cv de potência, e sua velocidade máxima de 324 km/h, construíram uma aura de invencibilidade e a consagraram como a máquina definitiva para quem buscava o ápice da performance. A Ferrari F40 no Brasil foi um evento para os apaixonados.
Fechando o percurso histórico no estande do Carde, o Jaguar XJ220 fez sua aparição. Exibido no Salão de 1994, este modelo com motor V6 biturbo central e 550 cv ostentou o título de carro de produção mais rápido do mundo em 1992, atingindo a impressionante marca de 340 km/h. Com a produção restrita a cerca de 280 unidades, o XJ220 reforça o conceito de exclusividade e raridade, atributos que definem as verdadeiras joias automotivas. A presença de modelos como a Ferrari F40 e o Jaguar XJ220 no Salão do Automóvel destaca a importância crescente do mercado brasileiro para marcas de luxo e o interesse do público por carros de alta performance internacionais.
O Carde: Um Guardião da Memória Automotiva Brasileira
O museu Carde, que abriga essas e outras relíquias, está estrategicamente localizado em Campos do Jordão (SP), em meio a uma exuberante área de preservação de araucárias. Inaugurado em novembro de 2024, o Carde nasceu com a nobre missão de contar a história do Brasil através da lente do automóvel. Sua proposta vai além da simples exposição de modelos raros; o museu utiliza os carros como elementos centrais para narrar as profundas transformações culturais, tecnológicas e sociais que moldaram o século XX.
Vinculado à renomada Fundação Lia Maria Aguiar, o Carde já celebrou a marca de mais de 90 mil visitantes em seu primeiro ano de funcionamento. Este número expressivo reflete o fascínio contínuo pelo universo automotivo e a importância de preservar e compartilhar essa rica herança. O museu se integra a uma rede de iniciativas voltadas para a educação, cultura e saúde, demonstrando um compromisso abrangente com o desenvolvimento social e a disseminação do conhecimento. Para os aficionados por carros clássicos brasileiros e para aqueles que buscam compreender a evolução da engenharia e do design automotivo, o Carde se estabelece como um destino imperdível. A experiência de ver esses carros icônicos brasileiros em um ambiente dedicado à sua preservação é, sem dúvida, inestimável.
O Salão do Automóvel de São Paulo, com sua tradição, continua a ser o epicentro onde o futuro se encontra com o passado, onde a tecnologia de ponta dialoga com as memórias afetivas. A participação do Carde nesta edição de 2025 não só enriqueceu a experiência dos visitantes, mas também reafirmou o papel fundamental dos automóveis na construção da identidade e da história do Brasil. Cada peça exposta contou uma história, cada curva de um chassi remeteu a um tempo, e cada motor ali presente sussurrou o legado da engenharia e da paixão automotiva que pulsa em nossas veias.
Se você se sentiu inspirado por essa viagem no tempo e pela rica história que os automóveis contam, convidamos você a explorar mais sobre o universo automotivo. Descubra o legado dos carros brasileiros históricos, a inovação por trás dos projetos automotivos brasileiros e a paixão que move a indústria. Visite o museu Carde, participe dos próximos Salões do Automóvel e mantenha-se atualizado sobre as tendências e os clássicos que definem nossa relação com as quatro rodas. A jornada do automóvel no Brasil é contínua, e cada um de nós faz parte dela.

