Tesouros sobre Rodas: Como o Salão do Automóvel de São Paulo Revela a Alma da Indústria Automotiva Brasileira
A paixão por automóveis no Brasil transcende a mera funcionalidade; ela se entrelaça com a nossa história, nossas aspirações e a evolução de uma nação em constante movimento. O Salão do Automóvel de São Paulo, um palco histórico para a apresentação de inovações e sonhos sobre rodas, tem sido, desde suas primeiras edições, um espelho dessa relação intrínseca. Em sua mais recente configuração, realizada no vibrante Distrito Anhembi em novembro de 2025, essa conexão entre passado e futuro foi elegantemente destacada através de um estande singular, que trouxe joias automotivas de diferentes eras para o deleite do público paulistano e de visitantes de todo o país.
O Carde, um museu recém-inaugurado em Campos do Jordão, interior de São Paulo, com um acervo que remonta a décadas de glória automotiva, foi o protagonista dessa iniciativa. Ao selecionar e expor uma amostra de seu impressionante acervo, o Carde propôs mais do que uma simples mostra de carros antigos; o objetivo era evidenciar como certos veículos, muito mais do que meros conjuntos de metal e motor, se tornaram marcos afetivos, catalisadores de memórias e símbolos de gerações. Essa curadoria magistral, orquestrada por Luiz Goshima, uma figura de proeminência no universo dos automóveis no Brasil, misturou com maestria clássicos genuinamente brasileiros, supercarros de renome internacional e projetos experimentais audaciosos, todos, de alguma forma, intrinsecamente ligados à própria trajetória do Salão do Automóvel de São Paulo. Explorar esse estande foi, para o visitante, uma verdadeira viagem no tempo, uma imersão na evolução do design, da tecnologia e da cultura automobilística que moldou o Brasil.

A jornada afetiva proposta pelo Carde iniciou-se com a icônica Volkswagen Kombi Turismo, datada de 1960. Este exemplar, uma verdadeira precursora dos motorhomes, personifica o espírito de liberdade e a busca por aventuras em família que marcou uma época. As amplas janelas panorâmicas e o acabamento cuidadosamente pensado para expedições longas revelam uma era em que o automóvel era visto como uma extensão do lar, um refúgio móvel para desbravar o país. A simplicidade e a versatilidade da Kombi a consolidaram não apenas como um meio de transporte, mas como um companheiro inseparável de inúmeras famílias brasileiras, evocando um sentimento nostálgico de tempos mais simples e de viagens épicas.
Da mesma década, emergiu uma rara joia da engenharia nacional: o STV Uirapuru. Apresentado ao público no Salão de 1966 em uma deslumbrante versão conversível, este esportivo ostenta um design arrojado e faróis retangulares que, à época, sinalizavam uma busca por uma identidade automobilística própria em um Brasil que começava a sonhar com a produção de veículos de alta performance. Com uma produção extremamente limitada, de pouco mais de 70 unidades, a raridade do Uirapuru o eleva a um patamar de exclusividade, tornando cada exemplar sobrevivente um tesouro inestimável. Sua presença no estande não apenas resgatou memórias, mas também celebrou a ousadia e o talento dos engenheiros brasileiros que, mesmo com recursos limitados, concebiam máquinas capazes de competir em termos de estilo e performance com modelos internacionais.
A transição para a década de 1970 trouxe consigo um aumento de robustez e atitude ao estande. O Dodge Charger R/T, estrela da edição de 1971 do Salão – a primeira realizada no recém-inaugurado Pavilhão do Anhembi – fez sua aparição triunfal. Equipado com um potente motor V8 de 215 cv e ostentando um visual agressivo que se tornou sinônimo de força e velocidade, o Charger R/T solidificou seu status como um dos maiores ícones da era dos muscle cars brasileiros. Sua presença evoca uma nostalgia vibrante para os entusiastas, lembrando os tempos em que a potência e o estilo imponente definiam o ápice da engenharia automotiva nacional. A capacidade do Charger de capturar a imaginação de uma geração de fãs é um testemunho de seu design atemporal e de sua performance inegável, consolidando-o como um marco na história automotiva brasileira.
Ainda na mesma década, a Volkswagen demonstrou sua capacidade de inovação com o SP2. Este projeto, concebido e desenvolvido integralmente no Brasil com o objetivo de rivalizar com outros esportivos nacionais como o Puma, destacou-se por seu perfil baixo e linhas marcantes que lhe conferiram um status cultuado tanto no mercado interno quanto no exterior. Apesar de sua curta vida produtiva, que durou menos de quatro anos, o SP2 deixou uma marca indelével no imaginário dos entusiastas, representando um capítulo importante na busca por esportividade e design automotivo autônomo no país. Seu legado perdura, inspirando designers e engenheiros até os dias atuais, reforçando a capacidade brasileira de criar veículos com identidade própria.
A década de 1980 foi um período de transição e avanço tecnológico para a indústria automotiva brasileira, e o Salão do Automóvel refletiu essa efervescência. Um dos grandes protagonistas desse período foi o Volkswagen Gol GTI, que fez sua estreia pública em 1988. Este modelo se notabilizou por ser o primeiro carro de produção nacional a incorporar um sistema de injeção eletrônica, um marco tecnológico que não só aprimorou o desempenho e a eficiência do motor, mas também sinalizou a incorporação de tecnologias de ponta à indústria brasileira. O Gol GTI, especialmente na sua icônica cor Azul Mônaco, tornou-se um símbolo da nova era automotiva, representando a transição tecnológica que o país vivenciava e inaugurando uma fase de maior sofisticação e performance para os veículos fabricados no Brasil. Este modelo é um exemplo notório de como o Brasil se adaptou e até mesmo liderou avanços tecnológicos na produção automotiva.

Outro representante da ousadia e da visão de futuro da engenharia brasileira presente no estande do Carde foi o Hofstetter. Apresentado em 1984, este protótipo se destacou como um dos projetos mais ambiciosos e inovadores já concebidos no país. Com uma carroceria inovadora em fibra de vidro, motor Cosworth posicionado centralmente e portas em formato de “asa de gaivota”, o Hofstetter ostentava um design futurista e uma altura impressionantemente baixa, com apenas 99 cm. Inspirado nos grandes estúdios de design europeus da época, este modelo artesanal, do qual apenas 18 unidades foram concluídas ao longo de sua produção limitada, exemplifica a busca incessante por originalidade e excelência técnica que caracterizou alguns dos momentos mais criativos da indústria automotiva brasileira. A concepção e execução do Hofstetter demonstram um nível de especialização e criatividade que muitas vezes passa despercebido em discussões sobre a história automotiva nacional, sendo um verdadeiro emblema da engenharia automotiva de alta performance no Brasil.
A década de 1990 representou um divisor de águas para o mercado automotivo brasileiro, com a abertura das importações. Essa mudança permitiu que o Salão do Automóvel de São Paulo se tornasse uma vitrine para máquinas que antes só podiam ser admiradas em revistas especializadas, ampliando o leque de opções e elevando o padrão de exigência dos consumidores. Neste cenário de novas possibilidades e maior acesso a tecnologias globais, o estande do Carde trouxe dois exemplos de tirar o fôlego.
Primeiramente, a icônica Ferrari F40. Apresentada internacionalmente em 1987 e celebrada como um pináculo da engenharia italiana, este supercarro foi exposto no Salão de São Paulo, cativando a multidão com sua presença imponente. Equipado com um motor V8 biturbo de 478 cv e capaz de atingir a vertiginosa velocidade máxima de 324 km/h, a F40 construiu uma aura de mito, sendo considerada por muitos o supercarro definitivo de sua época. Sua presença no Brasil, mesmo que por meio de importações individuais, marcou um antes e um depois na percepção do que era possível em termos de performance automotiva, inspirando uma nova geração de entusiastas e colecionadores. A Ferrari F40 não é apenas um carro, mas um ícone cultural que representa o ápice da engenharia e do design automotivo, e sua inclusão neste contexto histórico reforça a importância do Salão como portal para o mundo da alta performance.
Completando a retrospectiva histórica, o Jaguar XJ220 fez sua aparição no Salão de 1994. Este modelo, com seu motor V6 biturbo central de 550 cv, chegou a ostentar o título de carro de produção mais rápido do mundo em 1992, atingindo a impressionante marca de 340 km/h. Com uma produção restrita de aproximadamente 280 unidades, o XJ220 exemplifica a exclusividade e o prestígio que carros de alta performance podem oferecer. Sua inclusão no estande do Carde reforça a ideia de que o Salão do Automóvel de São Paulo sempre foi um palco para a celebração do que há de mais avançado e desejável no mundo automotivo, conectando os brasileiros com as tendências globais e inspirando sonhos de velocidade e luxo. O XJ220, com sua silhueta aerodinâmica e performance excepcional, é um testemunho do engenho automotivo que o Brasil pôde vislumbrar durante esses anos de abertura do mercado.
Por trás dessa impressionante coleção de maravilhas automotivas está o Museu Carde, um espaço que se dedica a contar a história do Brasil através de seus veículos. Localizado em meio à exuberante paisagem de araucárias em Campos do Jordão, o Carde foi inaugurado em novembro de 2024 com a missão de ir além da simples exposição de carros raros. O museu utiliza cada automóvel como um ponto de partida para narrar as transformações culturais, tecnológicas e sociais que moldaram o século XX e continuam a influenciar o nosso presente. Ao oferecer um acervo tão cuidadosamente selecionado e contextualizado, o Carde se posiciona como um centro de memória e educação, demonstrando a profunda conexão entre a evolução da indústria automotiva e o desenvolvimento da sociedade brasileira.
Vinculado à renomada Fundação Lia Maria Aguiar, o Carde tem se consolidado como um importante polo cultural, atraindo mais de 90 mil visitantes em seu primeiro ano de funcionamento. Sua atuação se expande para além das exposições, integrando uma rede de iniciativas nas áreas de educação, cultura e saúde, reforçando seu compromisso com o desenvolvimento social e cultural do país. O museu não é apenas um guardião de relíquias automotivas, mas um agente ativo na promoção do conhecimento e da valorização do patrimônio histórico e tecnológico brasileiro.
O Salão do Automóvel de São Paulo, em sua edição de 2025, reafirmou seu papel como um palco essencial para a reflexão sobre a trajetória da indústria automotiva no Brasil. A exposição organizada pelo Carde serviu como um lembrete eloquente de que cada carro conta uma história, de que o asfalto brasileiro foi palco de inovações, paixões e conquistas. Do pioneirismo da Kombi à ousadia dos supercarros que cruzaram o Atlântico, cada peça exibida é um capítulo vivo em nossa história sobre rodas.
Seja você um entusiasta de longa data, um colecionador em potencial ou alguém que simplesmente aprecia a beleza e a engenhosidade dos automóveis, esta celebração da história automotiva brasileira oferece uma perspectiva única sobre o que nos move. Convidamos você a aprofundar sua conexão com essa rica herança, explorando não apenas os carros, mas as histórias que eles carregam e o impacto que tiveram em nossas vidas e em nossa nação. Descubra mais sobre o legado automotivo brasileiro e como ele continua a inspirar o futuro, visitando museus como o Carde ou buscando os clássicos que definiram gerações. O futuro da mobilidade é construído sobre os alicerces sólidos do passado, e entender essa jornada é o primeiro passo para apreciar verdadeiramente a evolução sobre quatro rodas.

