Maserati Levante: O SUV Que Financia os Superesportivos
Já conduzimos o Maserati Levante — e ele chega tocando num ponto sensível para os entusiastas da marca: de onde vem o dinheiro para os superesportivos que tanto amamos? A resposta está clara para qualquer contador de Modena: SUVs são a forma de garantir a sobrevivência das máquinas exóticas.
Quando fabricantes tradicionalmente esportivas aparecem com utilitários grandes, minhas expectativas costumam ser baixas. A dificuldade nunca é criar um “jipão”, mas sim uma extensão natural da marca. E a Maserati, assim como Rolls-Royce e Lamborghini, parece ter pensado cuidadosamente em como silenciar as críticas sobre SUVs em marcas históricas.
Com essa perspectiva, levei o Levante para uma estrada estreita e repleta de curvas nas montanhas de Monterey — uma espécie de Nürburgring californiano. Já na primeira curva, com subida e raio negativo, reduzi marchas e deixei o V6 de origem Ferrari cantar, enchendo o interior com sua melodia enquanto eu contornava o precipício sem proteção. O Levante se manteve firme, reagindo como um sedã grande, indiferente às mudanças de elevação e ao traçado complexo. Tudo isso envolto em couro luxuoso e com 20 cm de distância do solo.

Essas estradas são feitas para esportivos, e por isso são perfeitas para revelar o caráter do Levante. Bastou a segunda curva, com reduções bruscas e roncos do escapamento, para entender: ele é apenas um Maserati maior — e igualmente prazeroso.
A cintura alta dá presença ao SUV, gerando dúvidas sobre se ele está mais para Macan ou Cayenne (é o segundo). O modelo surge em meio a mudanças profundas no mercado de SUVs. O Kubang, primeiro experimento da Maserati, parece distante. Hoje a briga entre marcas está em como transmitir a essência esportiva em um carro mais alto — algo que a Mercedes fez ao transformar o Classe M no GLE.
O Levante segue a tradição da Maserati de batizar carros com nomes de ventos; aqui, referência ao vento mediterrâneo associado a alta pressão. Mas trata-se de um produto nada tradicional. Alguns compradores podem estranhar a herança FCA e a antiga colaboração com a Daimler Chrysler, mas o tridente enorme na grade se encarrega de lembrar que é um objeto de desejo italiano.
Apesar de claramente Maserati, o Levante traz traços inspirados no Cayenne — o que explica porque ele parece mais um Ghibli Wagon que qualquer SUV robusto. Ele não só se parece com um Cayenne: também se sente como um, sobretudo na forma como você entra pela porta dianteira larga e se acomoda como num sedã. De tamanho externo semelhante ao Cayenne, carrega um porta-malas menor que X5 e Cayenne — mas seus donos não o compram por isso.
O design revela cortes elegantes e superfícies limpas, enquanto a cabine exibe costura requintada. O interior é luxuoso sem exagero, embora existam peças compartilhadas com Chrysler 300 e Ram 1500. O multimídia é excelente, com CarPlay e menus intuitivos, mas os controles de condução exigem aprendizagem — quase como um curso básico da Maserati.

Testei o Levante S na especificação americana, com poucas diferenças além das milhas no painel. Tanto a versão básica quanto a S usam o V6 3.0 biturbo, com 345 e 424 cv, respectivamente. A Maserati prevê 0–96 km/h em cerca de 6 s (ou 5,2 s no S), colocando ambos como SUVs realmente esportivos. Ao contrário do Ghibli, o Levante será apenas AWD nos EUA.
Acelere fundo e o SUV mostra sua alma italiana: rotações subindo rápido, trocas aggressive e o escapamento rugindo e estalando. Nas descidas onduladas, o peso aparece, mesmo nos modos esportivos com suspensão pneumática. A rigidez não filtra todas as imperfeições, algo que um Rolls-Royce Ghost faria com maestria.
Em velocidades altas, porém, o Levante mostra solidez. A direção hidráulica — rara hoje — dá respostas reais, tornando a condução prazerosa. No modo I.C.E., tudo fica mais suave e eficiente.
Depois de algum tempo ao volante, fica claro: o Levante tenta te convencer de que você está em um supercarro elevado, e faz isso bem. Para entusiastas, é um triunfo da equipe Maserati.
Seu problema é existencial: enquanto a marca desenvolvia o Levante desde o conceito Kubang, a concorrência evoluiu. O Jaguar F-Pace, por metade do preço, entrega desempenho próximo — especialmente na versão R Sport de 380 cv. Ainda assim, Maserati vive numa bolha própria, algo positivo para quem compra pela emoção.
Se você quer um SUV esportivo e tem o saldo bancário para sustentar esse estilo, coloque o Levante na lista: o tridente fala mais alto.

