Tesouros Automotivos e a Alma do Salão do Automóvel: Uma Viagem Pela História sobre Rodas no Brasil
O Salão do Automóvel de São Paulo, desde suas primeiras edições, sempre se estabeleceu como um palco privilegiado onde o passado reverente e o futuro promissor do setor automotivo brasileiro se entrelaçam. Na vibrante edição de 2025, realizada no coração pulsante da capital paulista, no Distrito Anhembi, essa simbiose foi magnificamente personificada pela presença marcante do Carde, um museu recém-inaugurado na pitoresca Campos do Jordão. Com um acervo que é um verdadeiro tesouro de veículos que atravessaram diferentes eras, o museu trouxe uma seleção de raridades que não apenas encantou os visitantes, mas também reacendeu memórias e evocou um profundo senso de conexão afetiva com a evolução do automóvel em nosso país. A proposta do Carde, ao expor parte de suas joias, foi clara: demonstrar como certos modelos transcenderam a mera funcionalidade de máquinas, transformando-se em verdadeiros marcos e referências culturais para inúmeras gerações que por ali passaram.
Luiz Goshima, o visionário curador por trás do que muitos consideram o verdadeiro “reinado dos automóveis no Brasil”, orquestrou com maestria a seleção de oito modelos icônicos. Cada um deles, em sua respectiva década, possuía a capacidade singular de despertar o imaginário dos brasileiros. A exposição foi um primor de curadoria, mesclando com maestria clássicos nacionais que moldaram nossa identidade automobilística, supercarros que ditavam tendências de performance e design, e projetos experimentais que ousaram desafiar os limites da inovação. O elo comum entre todos eles era a sua intrínseca ligação com a própria trajetória do Salão do Automóvel, consolidando a mostra como uma ode à história automotiva nacional.

Nossa jornada imersiva, guiada pela visão do Carde, teve seu ponto de partida em 1960, ano de fabricação da exemplar Kombi Turismo exposta. Essa versão, que mais se assemelhava a um motorhome primordial, capturava com perfeição o espírito aventureiro e a essência das viagens em família de outrora. O veículo da Volkswagen era um testemunho da simplicidade de uma era onde o automóvel era percebido como uma extensão do lar, com suas amplas janelas panorâmicas e um acabamento pensado para abraçar longas jornadas e descobertas. A Kombi Turismo da VW não era apenas um meio de transporte; era um convite à liberdade e à exploração.
Da mesma década emana outra joia rara: o STV Uirapuru. Um dos esportivos mais escassos já concebidos e produzidos em terras brasileiras, ele fez sua estreia triunfal no Salão de 1966 em sua versão conversível. Com uma produção limitada a pouco mais de 70 unidades – das quais um número irrisório sobreviveu até os dias atuais –, o Uirapuru se destacava por seu design audacioso e seus faróis retangulares, prenunciando uma busca genuína por uma identidade esportiva nacional em um período em que o Brasil dava seus primeiros passos na concretização de seus sonhos de desempenho automotivo. A raridade do STV Uirapuru apenas acentuava seu valor histórico e sua importância para a indústria automotiva brasileira.
A transição para a década de 1970 trouxe consigo uma nova onda de robustez e potência, personificada pelo lendário Dodge Charger R/T. Estrela incontestável da edição de 1971 do Salão, a primeira a ser realizada no recém-inaugurado Pavilhão do Anhembi, este muscle car americano ostentava um motor V8 de 215 cv e um visual imponente e agressivo. Essas características foram cruciais para solidificar o Charger R/T como um dos maiores ícones da era dos muscle cars brasileiros, um símbolo de força e performance que ecoa até hoje. A presença do Dodge Charger R/T no estande do Carde foi um convite a reviver a era de ouro dos carros de alta cilindrada no Brasil.
Em paralelo, também originária dessa mesma década, a Volkswagen apresentava o SP2. Este projeto, concebido e desenvolvido integralmente no Brasil, foi uma resposta ousada para competir com outros esportivos da época, como o Puma. Com seu perfil baixo, linhas marcantes e um design que cativava à primeira vista, o SP2 conquistou um status cultuado tanto nacional quanto internacionalmente, apesar de sua produção ter se estendido por pouco menos de quatro anos. O Volkswagen SP2 se tornou um símbolo de inovação brasileira e de um design arrojado, conquistando admiradores em todo o mundo.
A década de 1980 foi um divisor de águas para os entusiastas automotivos, e o Salão do Automóvel se tornou o epicentro dessa efervescência. Um dos grandes protagonistas desse período foi o Volkswagen Gol GTI. Apresentado ao público em 1988, o Gol GTI ostentava um título de pioneirismo: foi o primeiro carro nacional a incorporar a tecnologia de injeção eletrônica. Em sua icônica tonalidade Azul Mônaco, este esportivo não apenas simbolizava a transição tecnológica da época, mas também inaugurava uma nova e promissora fase para toda a indústria automobilística brasileira. O Gol GTI representa a força da engenharia nacional e a busca pela modernidade.
O Carde também fez questão de apresentar outro exemplar dessa fase de ousadia e inovação brasileira: o Hofstetter. Este protótipo, exibido em 1984, é amplamente considerado um dos projetos mais impressionantes e ambiciosos já concebidos em nosso país. Dotado de uma carroceria em fibra de vidro, um motor Cosworth posicionado centralmente e portas do tipo “asa de gaivota”, o Hofstetter ostentava uma estética futurista e uma altura que não ultrapassava os 99 cm. Sua concepção bebeu inspiração direta dos grandes estúdios de design europeus da época. Ao longo de sua produção artesanal, apenas 18 unidades foram finalizadas, consolidando o Hofstetter como um ícone de exclusividade e inovação radical na história automotiva brasileira.
A década de 1990 marcou uma revolução com a abertura das importações, e o Salão do Automóvel se transformou em uma vitrine para máquinas que, até então, só existiam no imaginário, vistas em revistas especializadas. Entre esses sonhos importados, destacou-se a Ferrari F40. Lançada originalmente em 1987, a F40 é uma celebração máxima da engenharia italiana, um marco inegável de performance e design. Seu motor V8 biturbo, capaz de entregar 478 cv, e uma velocidade máxima de 324 km/h, solidificaram sua aura como o supercarro definitivo de sua geração. A Ferrari F40 é um testemunho da busca pela excelência automotiva e do legado de paixão e velocidade da marca italiana.

Para encerrar essa extraordinária retrospectiva histórica, o Carde trouxe ao Anhembi o impressionante Jaguar XJ220. Exibido no Salão de 1994, este modelo britânico com motor V6 biturbo central, que gerava 550 cv, detinha o título de carro de produção mais rápido do mundo em 1992, alcançando a marca de 340 km/h. Com uma produção estimada em cerca de 280 unidades, o número reforça sua exclusividade e o torna um dos exemplares mais cobiçados por colecionadores. O Jaguar XJ220 personifica o ápice da engenharia e aerodinâmica automotiva do século passado, um verdadeiro objeto de desejo.
O museu por trás dessas memórias, o Carde, localizado em meio à exuberante área preservada de araucárias em Campos do Jordão, abriu suas portas em novembro de 2024 com uma missão inspiradora: recontar a história do Brasil através da lente do automóvel. Sua abordagem transcende a simples exposição de modelos raros. O Carde utiliza os carros como protagonistas para narrar as profundas transformações culturais, tecnológicas e sociais que moldaram o século 20. Mais do que um acervo de veículos, o museu é um portal para a compreensão de como o automóvel se tornou um fio condutor na tapeçaria da nossa sociedade.
Vinculado à renomada Fundação Lia Maria Aguiar, o Carde não apenas impressiona pela qualidade de seu acervo automotivo, mas também pela sua relevância social. Em seu primeiro ano de operação, o museu já ultrapassou a marca de 90 mil visitantes, consolidando-se como um importante ponto de referência cultural e turística. Além de sua vocação para a preservação e exibição de raridades automotivas, o Carde integra uma rede mais ampla de iniciativas que visam o desenvolvimento nas áreas de educação, cultura e saúde, demonstrando um compromisso multifacetado com o bem-estar da comunidade e a promoção do conhecimento.
O Salão do Automóvel de São Paulo, enriquecido pela participação do Carde e sua seleção de joias automotivas, reafirma seu papel como um evento que celebra o presente e o futuro, ao mesmo tempo em que reverencia um passado rico em inovação, paixão e história. Cada um desses veículos expostos é mais do que um objeto estático; é um portal para uma época, um reflexo de seus tempos e um convite a redescobrir a profunda conexão que temos com a indústria automotiva brasileira.
Se você foi cativado por essa viagem ao passado glorioso do automóvel no Brasil e deseja explorar ainda mais a fundo o universo dos carros clássicos, de alta performance e das inovações que moldaram a nossa história sobre rodas, o Carde em Campos do Jordão é o seu próximo destino imperdível. Agende sua visita e permita-se vivenciar de perto a paixão que move a indústria automotiva brasileira.

