Salão do Automóvel de São Paulo: Uma Década de Análise Profissional Sobre a Confluência entre Herança e Futuro da Indústria Automotiva Nacional
Como um profissional com mais de uma década imerso no dinâmico universo automotivo, acompanho de perto a evolução dos grandes palcos que moldam a percepção pública e o futuro do setor. O Salão do Automóvel de São Paulo sempre se destacou como um desses epicentros, não apenas por ser uma vitrine de lançamentos e tecnologias de ponta, mas por sua notável capacidade de tecer uma ponte entre o passado glorioso e o futuro incerto, porém promissor, da mobilidade. A edição de 2025, realizada no icônico Distrito Anhembi, foi um testemunho eloquente dessa dualidade, especialmente com a participação estratégica do Carde, o recém-inaugurado museu de Campos do Jordão.
Em minha análise, o evento transcende a mera exposição de veículos; ele se estabelece como um diálogo contínuo sobre identidade, inovação e paixão. O Salão do Automóvel, em sua essência, reflete o pulso da indústria automobilística brasileira, capturando as aspirações de consumidores e a audácia de engenheiros e designers. A proposta do Carde de apresentar uma curadoria de raridades, misturando carros clássicos nacionais com supercarros de luxo e protótipos experimentais, não foi apenas uma exposição; foi uma aula magna sobre como determinados modelos se entranharam no imaginário coletivo, transformando-se em referências afetivas que atravessam gerações. Essa abordagem é crucial para o setor, pois o reconhecimento do legado é tão vital quanto o impulso rumo à vanguarda da tecnologia automotiva avançada.
A Curadoria que Resgata a Alma Automotiva: Luiz Goshima e o Carde
O diferencial do estande do Carde no Salão do Automóvel de São Paulo foi a impecável curadoria de Luiz Goshima, um nome que, na minha percepção, tem sido fundamental para o resgate e valorização do que chamo de “reinado dos automóveis no Brasil”. Sua visão não se limitou a selecionar automóveis raros; ele orquestrou uma narrativa. Cada veículo ali exposto era um capítulo de uma história maior, intrinsecamente ligada à própria trajetória do Salão do Automóvel e à formação da identidade automotiva nacional. Essa perspectiva aprofundada é o que diferencia uma simples mostra de um mergulho educacional e emocional, algo cada vez mais valorizado em eventos de grande porte e no mercado de investimento em carros clássicos.

Goshima compreendeu que, em um mundo cada vez mais digitalizado e focado no futuro elétrico e autônomo, a nostalgia e a memória afetiva possuem um poder ímpar. O público do Salão do Automóvel busca não apenas o novo, mas também a conexão com o que construiu a paixão automotiva. Essa é uma tendência global, onde o mercado de colecionadores de carros e a busca por valorização de carros antigos continuam em ascensão, impulsionando a demanda por peças de história automotiva bem preservadas e autenticadas. A curadoria, portanto, não é apenas estética; é estratégica, posicionando o Carde como um dos mais relevantes museus de carros do país.
Decifrando Ícones: Uma Jornada Pelas Décadas da Indústria Automobilística Brasileira no Salão do Automóvel
A exposição do Carde no Salão do Automóvel de São Paulo foi uma verdadeira máquina do tempo, desdobrando a evolução da indústria automobilística brasileira através de seus modelos icônicos.
Os Pioneiros e o Espírito da Aventura (Anos 60):
A viagem começou com a Kombi Turismo de 1960. Este modelo, mais do que um veículo, representava um estilo de vida – a liberdade de viajar em família, a simplicidade de uma época onde o automóvel era uma extensão do lar. Suas janelas panorâmicas e acabamento pensado para longas aventuras refletem a busca por uma experiência de mobilidade integrada, algo que vemos ressignificado hoje nos veículos recreativos e motorhomes modernos. É um exemplo perfeito de como o design funcional e a proposta de valor podem gerar um legado duradouro.
Em contraste, o STV Uirapuru, apresentado ao público no Salão de 1966, simbolizava a audácia e a ambição de uma indústria automobilística brasileira que ensaiava seus primeiros sonhos de esportividade nacional. Com um design arrojado e faróis retangulares que buscavam uma identidade própria, este esportivo raríssimo – com pouco mais de 70 unidades produzidas – é hoje um tesouro para colecionadores de carros. Sua presença no Salão do Automóvel não apenas ressaltou sua exclusividade, mas também a capacidade criativa e inovadora dos engenheiros brasileiros da época, que, com recursos limitados, desafiavam as convenções.
A Era do Poder e da Inovação Nacional (Anos 70):
A virada para os anos 70 trouxe a robustez do Dodge Charger R/T, a estrela do Salão do Automóvel de 1971, o primeiro a ser realizado no então recém-inaugurado Pavilhão do Anhembi. Com seu motor V8 de 215 cv e visual agressivo, o Charger R/T não só consolidou a era dos muscle cars brasileiros, mas também incutiu na memória coletiva uma imagem de força e performance. Ele representava o auge de uma certa opulência automotiva nacional, atraindo olhares e sonhos, um verdadeiro ícone da época que continua a inspirar o design de muitos veículos esportivos contemporâneos.
Da mesma década, a Volkswagen introduziu o SP2, um projeto 100% desenvolvido no Brasil para competir com o Puma. Com seu perfil baixo e linhas marcantes, o SP2 alcançou status cult dentro e fora do país, apesar de sua produção ter durado menos de quatro anos. Sua estética avançada para a época e a ousadia de um design totalmente nacional demonstram a capacidade de inovação automotiva brasileira, mesmo sob restrições de mercado. No Salão do Automóvel, o SP2 serve como um lembrete do potencial criativo que sempre existiu em nosso parque industrial.
A Revolução Tecnológica e a Ousadia Criativa (Anos 80):
Os anos 80 foram marcados por um avanço tecnológico significativo, e o Volkswagen Gol GTI foi um protagonista nesse cenário. Revelado ao público no Salão do Automóvel de 1988, ele foi o primeiro carro nacional a ostentar injeção eletrônica. Na icônica cor Azul Mônaco, o Gol GTI simbolizou a transição tecnológica da indústria, inaugurando uma nova fase de performance e eficiência que se estenderia pelas décadas seguintes. Sua importância não pode ser subestimada; ele democratizou o acesso a uma tecnologia automotiva que até então era restrita a veículos importados ou de luxo, mostrando a adaptabilidade e o dinamismo da indústria automobilística brasileira.

Outro representante da ousadia brasileira dessa década foi o Hofstetter. Um protótipo apresentado em 1984, este carro é, na minha opinião, um dos projetos mais impressionantes já concebidos no país. Com carroceria de fibra de vidro, motor Cosworth central e portas do tipo asa de gaivota, seu design futurista e apenas 99 cm de altura incorporavam ideias inspiradas nos grandes estúdios europeus da época. Com apenas 18 unidades produzidas artesanalmente, o Hofstetter é um testamento da paixão e da visão de um pequeno grupo de entusiastas que sonhavam grande. Exibir um exemplar desses no Salão do Automóvel é uma forma de honrar a engenhosidade nacional e inspirar futuras gerações de designers.
A Abertura e o Sonho Global (Anos 90):
A década de 1990 marcou uma virada de paradigma com a abertura das importações, transformando o Salão do Automóvel em um palco para máquinas que antes eram vistas apenas em revistas estrangeiras ou em sonhos. A Ferrari F40, apresentada originalmente em 1987 e celebrada como um marco da engenharia italiana, foi um dos destaques. Seu motor V8 biturbo de 478 cv e a velocidade máxima de 324 km/h construíram sua aura de supercarro definitivo, um verdadeiro objeto de desejo e um marco da performance automotiva global. Para o público brasileiro, sua presença no Salão do Automóvel de São Paulo era a materialização de um sonho de consumo, simbolizando a reconexão do país com o mercado automotivo mundial. A F40 é um exemplo emblemático de supercarros de luxo que não perdem o apelo e continuam sendo um forte objeto de investimento em carros clássicos.
Fechando o percurso histórico, o Carde trouxe ao Anhembi o Jaguar XJ220, exibido no Salão de 1994. Com motor V6 biturbo central e 550 cv, o modelo chegou a ser o carro de produção mais rápido do mundo em 1992, atingindo 340 km/h. Com cerca de 280 unidades produzidas, sua exclusividade é inegável. Estes dois veículos não são apenas belas máquinas; eles representam a era em que o Brasil se abria para a diversidade e a excelência da engenharia automotiva mundial, influenciando diretamente as expectativas dos consumidores e impulsionando a busca por financiamento de automóveis premium e a importação de veículos especiais.
Além do Brilho: O Legado do Carde e o Futuro da Conservação Automotiva
O Carde, ou Centro de Referência Automotiva e Design, é mais do que um museu de carros; é uma instituição com um propósito profundo. Inaugurado em novembro de 2024 em meio às araucárias de Campos do Jordão, sua missão vai além de expor veículos históricos. Ele se propõe a narrar a história do Brasil sob a ótica do automóvel, explorando as transformações culturais, tecnológicas e sociais do século XX. Essa abordagem holística é o que o torna um empreendimento tão relevante para a história automotiva e para a sociedade.
Vinculado à Fundação Lia Maria Aguiar, o Carde já atraiu mais de 90 mil visitantes em seu primeiro ano, um testemunho de seu sucesso e da crescente demanda por experiências que conectam o público à memória e ao legado automotivo. A iniciativa, que integra uma rede de projetos nas áreas de educação, cultura e saúde, demonstra como a paixão por automóveis pode ser um vetor para o desenvolvimento social e turístico, transformando Campos do Jordão em um destino ainda mais rico culturalmente. Para os profissionais que trabalham com consultoria automotiva e seguro para carros de coleção, a existência de um museu com a seriedade do Carde é fundamental para a validação e preservação do acervo nacional.
O Salão do Automóvel 2025 e o Cenário Pós-Pandemia: Tendências e Perspectivas
A edição de 2025 do Salão do Automóvel de São Paulo ocorreu em um cenário pós-pandemia, onde a indústria automobilística brasileira e global enfrenta desafios e oportunidades sem precedentes. A presença forte do Carde nesse contexto sublinha uma tendência que venho observando: a crescente valorização da herança em paralelo com a busca incessante por inovação automotiva. Enquanto o público se maravilha com protótipos elétricos, veículos conectados e soluções de mobilidade inteligente, a conexão emocional com o passado automotivo se mostra mais forte do que nunca.
O Salão do Automóvel de hoje não é apenas sobre a potência dos motores a combustão ou o luxo do acabamento em couro. Ele abraça a eletrificação, a sustentabilidade, a conectividade e a autonomia como pilares do futuro. No entanto, a exposição de carros antigos e clássicos nacionais como a Kombi Turismo ou o Gol GTI serve como um lembrete de onde viemos, celebrando a engenhosidade que pavimentou o caminho para as inovações de 2025 e além. Essa integração entre o “analógico” e o “digital”, entre a história e a vanguarda, é o que garante a relevância contínua de eventos como o Salão do Automóvel de São Paulo, tornando-o um local para discutir não apenas o “o quê”, mas o “porquê” e o “para onde” da mobilidade. A manutenção de veículos esportivos históricos, por exemplo, dialoga com a sustentabilidade através da longevidade e da reciclagem de valor, mostrando que o passado pode ser parte do futuro.
Em minha experiência, o sucesso de eventos como o Salão do Automóvel de São Paulo reside na sua capacidade de adaptação e na profundidade de suas ofertas. A colaboração com o Carde eleva o evento de uma mera feira a uma experiência cultural e educacional completa, reforçando a importância do legado automotivo para a compreensão do nosso presente e a construção do nosso futuro. É um espaço onde a paixão é nutrida, o conhecimento é compartilhado e a indústria automobilística brasileira celebra suas raízes enquanto aponta para novas direções.
Concluo que o Salão do Automóvel de São Paulo, magnificamente complementado pela curadoria do Carde, reitera o poder atemporal do automóvel como catalisador de progresso, emoção e memória. Para aqueles que desejam aprofundar-se nesta fascinante jornada da mobilidade e descobrir mais sobre o universo dos carros clássicos e a história automotiva do Brasil, convido-os a visitar o Carde em Campos do Jordão ou a explorar as plataformas digitais dos museus e eventos automotivos. Mantenha-se conectado às novidades e aos tesouros sobre rodas que continuam a nos inspirar.

